Resenha: “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe

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Título: A Desumanização
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Cosac Naify
Ano: 2014

Antes de tudo quero dizer que minha resenha, por maior que seja, não vai conseguir explicar o que acontece neste livro. Portanto, tentarei dissertar sobre os pontos mais importantes e, ao longo do texto, incluirei frases que chamaram a minha atenção.

“A Desumanização” tem um título forte e que é plenamente justificado no fim da leitura. Depois de todas as curvas e descidas na vida de Halla, vemos que ela levou a sério quando seu pai fala que é possível substituir “vida” por “poesia”. É isso que ela faz durante todo o livro.

Não é um livro fácil. Não é um livro para se devorar em uma sentada. É um livro profundo, feito de imersões na mente e vida da (inocente?) protagonista, Halla, e das pessoas que convivem (ou conviveram) ao seu redor: a mãe, o pai, Sigridur, Einar, Steindór, Thurid e ainda Hilmar e Oskar.

Luto: as dissertações de Halla acerca do sentimento de luto por sua irmã falecida, Sigridur, são belas. A beleza do luto e da depressão descritos pelo autor conseguem ultrapassar a barreira do senso comum de que essas coisas tão ruins tenham alguma beleza. Valter Hugo Mãe consegue tornar bonito e poético até mesmo as coisas mais grotescas, te deixando com uma mistura desagradável de surpresa, tristeza e deslumbre.

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(imagem/Viajar Entre Viagens)

“A ver a imensidão dos fiordes, as montanhas de pedra cortadas por rigor, o movimento nenhum, achei que o mundo mostrava a beleza mas só sabia produzir o horror.” (posição 77-78)

 

Imaginação: por ser narrado por uma criança, é comum que ocorram diversas abstrações sobre as mais diversas coisas. Principalmente quando essas coisas são detalhadas de um ponto de vista abalado pela tristeza e ceticismo. Além disso, no começo do livro, várias dessas abstrações são alimentadas pelo pai de Halla, que é poeta e um leitor nato.

“Punham-se à espreita das águas a perceber se havia movimentos suspeitos. Quase todos queriam ver monstros. Ninguém se convencia de que os mares eram só para animais de clara ciência. Alguns juravam ter visto cabeças levantadas, feitas de dez olhos e bocas de mil dentes. Monstros oceânicos. Viam o oceano como sangue de cristal. Balanceava diante de nós sinuoso, muito belo, mas carregava-se de perigos e sonhava com afogar-nos a todos. O oceano desceu das veias puras de deus. Dizia um velho. Nas veias puras de deus vivem parasitas que são monstros.” (posição 129-133)

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As auroras boreais islandesas também aparecem durante o livro. (imagem/Islandia 24)

“Apertei a moeda. Adormeci à espera que crescesse e me matasse. As moedas eram da família das facas.” (posição 490-491)

Sociedade: durante todo o livro e todos os “altos e baixos” da vida de Halla, a sociedade em que ela está inserida é colocada como a vilã da história. E com razão. Desde o primeiro momento, em que ela perde a irmã e é obrigada a viver com uma mãe perturbada e violenta e é chamada, insensivelmente, de “a irmã menos morta” até as várias situações ruins em que ela se encontra, é possível observar a maneira imprudente que a sociedade lida com as pessoas que estão passando por dificuldades.

A agressão, a rejeição, os xingamentos, parecem ser mais “fáceis” do que simplesmente o acolhimento de Halla.

“A mais morta está abandonada. Puseram-na lá em cima e agora não querem saber. A mais morta, quando apanhar esta do lado de lá, também lhe vai dar muitas no focinho. Deve odiá-la. A mais morta deve odiar a irmã e deve estar à espera que ela tombe de uma vez por todas.” (posição 1179-1181)

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Valter Hugo Mãe (imagem/Rita Rocha)

Leitura: “A Desumanização” é praticamente uma homenagem aos livros e à poesia. É a única escapada possível para a vida turbulenta de Halla (e, por influência dela, da vida de Einar).

“Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” (posição 482-483)

Também ocorrem diversas abstrações sobre linguagem, literatura e como essas coisas se relacionam com a natureza que ela observa.

“Nenhuma pedra se entende por caracteres. As pedras são entidades absolutamente autónomas às expressões. As pedras recusam a linguagem. Para a linguagem as pedras reclamam o direito de não existir. Se as nomeamos não estamos senão a enganarmo-nos voluntariamente. Às pedras nunca enganaremos. Elas sabem que existem por outros motivos e talvez suspeitem que o nosso desejo de falar seja só um modo menos desenvolvido de encarar a evidência de existir.” (posição 321-325)

Ignorância: sua tia, Thurid, é uma mulher ignorante e que costuma reproduzir discursos inflamados sobre coisas que ela não conhece. Em determinada parte, ela queima livros, cria teorias conspiratórias e discursa sobre uma maldição que acomete escritores. Neste tópico, trago duas citações:

“A mulher urso construía as convicções mais delirantes do mundo. Afirmava que as guerras mundiais não haviam existido. Haviam servido para arregimentar os homens, mandá-los para lugares quentes, dar-lhes fome e sede, para depois levar lhes coca-cola num golpe publicitário sem precedentes. A coca-cola inventara claramente a primeira guerra, servindo-se com cocaína pura para anestesia coletiva da população mundial.” (posição 1372-1375)

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Esta erupção vulcânica faz parte da geleira Eyjafjallajökull. Esta, especificamente, não aparece no livro, mas serve pra ilustrar uma das paisagens narradas por Halla. (imagem/G1)

 

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(imagem/Blog do Arthur Veríssimo)

“Os escritores teriam sempre longas contas para acertar com deus, por se atreverem a deixar as ideias mais perigosas ao serviço dos mal preparados, dos ingénuos, dos sonhadores, dos que errariam em qualquer decisão perante as questões mais elementares. Deus haveria de sentenciar cada texto e cada memória, e todos os escritores seriam triturados entre os seus dedos para caírem como pó no esquecimento do inferno. A nós, competia nada, apenas assear, organizar, obedecer. Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos.” (posição 1388-1393)

 


RESUMO:

Por ser um livro publicado em português lusitano, o estilo de Valter Hugo Mãe se torna ainda mais rebuscado. É comum ter que reler diversas vezes o mesmo trecho para captar o que o autor pretendia dizer. Entretanto a beleza de “A Desumanização” é tão necessária, que a dificuldade de leitura torna-se um bom desafio para os leitores mais insistentes (como eu). Quando somos jogados nos fiordes Islandeses, somos afogados com a quantidade de temas extremamente relevantes tratados na obra. É até surpreendente que um autor tenha conseguido tratar de tudo isso, sem forçar a barra, em menos de 200 páginas. É o tamanho mais uma vez provando que não é documento.

Já considero “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe um clássico da literatura.

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