Resenha: “Selva de Gafanhotos” de Andrew Smith

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Título: Selva de Gafanhotos
Autor: Andrew Smith
Editora: Intrínseca
Ano: 2015

Selva de Gafanhotos foi um sopro de novidade muito bem vindo. Apesar de todos saberem que meu estilo preferido é mais obscuro do que o normal, foi interessante ler um livro de comédia. Não conhecia o Andrew Smith antes desse livro, mas estou encantado pelo jeito que ele escreve.

Formato do livro: é dividido em quatro atos com dezenas de capítulos dentro de cada um. Acho que essa divisão foi muito importante para fazer a história respirar. Como o estilo de escrita do autor é muito não-linear (acho que esse é o melhor jeito de definir), se ele formatasse o livro em capítulos enormes, tudo ficaria extremamente cansativo. Achei inteligente.

Tamanho: O livro tem 350 páginas e é pintado de amarelo nas laterais. Parece marcador de texto. É engraçado assistir a reação das pessoas ao ver esse detalhe.

Ritmo de leitura: este é o ponto em que eu tive que diminuir duas estrelas da nota final.

Você, provável leitor deste livro, precisa saber do que se trata: o Austin (que falarei no próximo tópico) trata de si mesmo como um historiador. Ele conta a própria história ao mesmo tempo que faz ligações com fatos do passado e de um futuro próximo. Por isso citei a não-linearidade da escrita. Ele conta diversas historias sobre seus antepassados (o que é muito interessante, pois ele detalha bastante e é fácil de entrar na trama).

Veja bem: eu adoro livros como esse. A escrita é diferente, muito mais interessante que o modo normal de se contar histórias. Eu estava absolutamente encantado na primeira metade do livro, entretanto, algo aconteceu depois disso e devo dizer que diminuiu a minha vontade de ler.

Não sei dizer exatamente o quê.

Talvez por lidar com muitos detalhes e tramas paralelas, o livro tenha ficado cansativo. Pecou pelo excesso (melhor do que pecar por escassez, óbvio).

Personagens: temos aqui três protagonistas:

Austin: o narrador e historiador. Ele é altamente irônico, com um humor estranho, tem bordões, é egoísta e indeciso. Tudo que a gente mais ama num protagonista. Ele também tem uma golden retriever chamada Ingrid que não late por causa de um tumor nas cordas vocais, caga muito e não se importa nem um pouco com o fim do mundo.

Robby: parafraseando o próprio Austin, é impossível não amar o Rob.

Shann: ela é meio chata, mas a gente acaba tendo simpatia por ela. É muito difícil lidar com Austins nessa vida.

Melhores partes: Um ponto importante dessa história, para mim, é que o autor dá muitos detalhes sobre muitas coisas. Ele é um historiador, certo? Para que o leitor não se perca naquele mundo de nomes e datas, ele repete as informações o tempo todo quando é preciso. Isso tudo regado a diversos bordões e frases de efeito.

Há também inúmeras partes hilárias que te farão rir muito (se você tiver o mesmo senso de humor distorcido dos personagens e eu, claro) e partes muito violentas e muito bem escritas.

Vale a pena comprar? Sim! Esse é um daqueles livros que você fica tentando ler devagar, mas não consegue. Depois da metade fica meio cansativo, mas você vai se divertir muito. Andrew Smith é um verdadeiro dínamo para te fazer rir.

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Resenha: “Laços de Família” de Clarice Lispector

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Título: Laços de Família
Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Ano: 2009 (o original foi publicado em 1960)

Quando comprei meu Kindle, adquiri uma biografia da Clarice Lispector. Desde as aulas de literatura que eu era obrigado a participar no início da minha adolescência, sempre fui fascinado pela pessoa Clarice. Perdi as contas de quantas vezes assisti à (ultima) entrevista da autora no programa Panorama, da TV Cultura.

Clarice me fascina pela sobriedade de sua tristeza e pela plena consciência de sua simplicidade. Por isso adquiri a biografia. Eis aqui o plot twist: até agora nunca tinha lido nenhuma obra da autora. O sentimento de culpa por isso me perseguia, até que decidi começar de uma vez por todas. E comecei bem.

Minha meta é ler grande parte da obra de Clarice antes de ler a sua biografia. Quem sabe assim eu consiga entender um décimo que seja de sua vida.

Formato do livro: É um livro de contos. Treze, para ser exato. O formato de antologia não podia ser mais simples, ou seja, não há muito para ser falado sobre isso.

Tamanho: Curto, com pouco mais de 130 páginas. Como li no Kindle, só consigo imaginar o seu tamanho na edição impressa.

Ritmo de leitura: Confesso que senti medo antes de começar. Pensei ser um daqueles livros curtos que passamos meses lendo, por ser cansativo ou muito rebuscado. Eu não poderia estar mais errado. A leitura de “Laços de Família”, exceto pelo primeiro conto (“Devaneio e embriaguez duma rapariga“) que é deveras complicado de ler, é simples.

A dificuldade vem simplesmente da profundidade das emoções exploradas no texto.

Existe partes em que é preciso ler e reler para entender exatamente o que a autora queria dizer, mas uma vez que você está imerso na história e conhece os personagens, tudo fica mais fácil. Sério. Sensibilidade é a palavra de ordem.

Aliás, algo que devo apontar: li o livro de ontem para hoje. Alguns podem dizer que não absorvi a leitura, ou que fui superficial. Garanto que não é o caso. Essa ressaca literária vai me acompanhar por semanas.

Melhores partes: Eu sofro de ansiedade, então foi fácil ter empatia com os personagens de Clarice. Todos eles sofrem desse mal, de uma forma ou de outra. Isso tornou todos os contos muito importantes para mim. Talvez por isso eu tenha conseguido fazer uma leitura tão rápida.

Consigo destacar os meus preferidos com facilidade: Amor, Uma Galinha, A Imitação da Rosa, Feliz Aniversário, O Jantar, O Crime do Professor de Matemática (esse envolve animais domésticos, um ponto muito fraco da minha personalidade, devo confessar) e O Búfalo.

Vale a pena comprar? Sim! Definitivamente, sim! Se você quer começar a ler Clarice Lispector, comece por aqui. São dramas psicológicos, tristezas, angústias e dores colocadas no papel de uma forma muito bonita. Caso você sofra de ansiedade, pessoalmente recomendo a leitura. Às vezes é essencial assistir os seus problemas como espectador. Se afastar deles para entender melhor como essas coisas funcionam e como podemos tentar resolvê-los.

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Resenha: “Assombro” de Chuck Palahniuk

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Título: Assombro
Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Leya
Ano: 2016 (o original foi publicado em 2005)

Comprei este livro ainda na pré-venda na Saraiva. Apesar de não ter tido a melhor experiência de compra da minha vida (a data de lançamento foi adiada quase cinco vezes e o livro demorou muito tempo pra chegar, mesmo com um valor de frete deveras caro comparado com o da Amazon), fiquei muito ansioso para começar a ler “Assombro” na época. Parte da minha ansiedade vinha do fato de eu já ler e reler na internet o conto “Vísceras” (no livro é chamado de “Tripas”).

Prometi a mim mesmo que o leria em janeiro, como livro principal (depois postarei sobre minha rotina de leitura e explicarei isso), mas acabei levando até hoje, oito de fevereiro, para terminar. Abaixo estão as minhas observações sobre essa obra.

Quem me conhece pessoalmente sabe o meu amor pelo Chuck Palahniuk. Sabe aquele autor que você lê absolutamente tudo que ele escreve? Até lista de supermercado, sabe? Pois é. Inclusive, estou devendo um textinho sobre ele (bem aos moldes do que escrevi para o Rubem Fonseca). Algo sobre o estilo de escrita dele me lembra o do Rubem, inclusive: só de bater o olho e ler um parágrafo eu já sei quem está escrevendo.

Formato do livro: Gosto de livros com formatos diferentes, até por ter passado muito tempo da minha vida lendo aquele mesmo formato arroz com feijão dos romances normais. Aqui, o Chuck alterna entre uma trama central, um “poema” e um conto narrado por um dos personagens. Tudo interligado. E a maneira que ele conseguiu fazer isso, sem furos aparentes e rebuscando as referências o tempo todo, só me deixou mais encantado com “Assombro”.

Se você ler com um pouco de atenção, não é difícil ver no livro uma sátira aos realities shows. Entretanto, de acordo com a Wikipédia, o Chuck disse que o livro é sobre a atual “batalha de credibilidade” já que, com a tecnologia, é muito fácil que qualquer um consiga publicar os seus trabalhos.

Tamanho: Mais de 500 páginas que assustam. Confesso. Em alguns pontos do livro, os mais (propositalmente) lentos, você tem a impressão de que não vai conseguir acabar. Daí vem o autor e te dá um tapa na cara e um soco no estômago pra te convencer a continuar.

Ritmo de leitura: O Palahniuk conesegue fazer algo que, na minha opinião, apenas os melhores autores conseguem: te fazem esquecer de tudo ao seu redor. Esse mergulho na trama é uma coisa muito positiva, principalmente pelas temáticas pesadas do livro. Ele mistura informações técnicas (ponto recorrente em todas as obras do autor), sentimentos e ações de uma forma magistral. Se ele ousasse deixar o leitor apenas na superficialidade, o texto provavelmente pareceria algo extremamente presunçoso. Mas não é.

Personagens: O livro tem cerca de 20 personagens na trama principal (não é relevante contar os personagens nos contos). 18 são pessoas supostamente escritoras que se oferecem para participar de um retiro de criatividade. As outras duas são a Sra. Clark e o Sr. Whittier, que são os únicos que escrevem mais de um conto. Aliás, não é possível sentir uma gota de empatia com nenhum desses loucos. Não há um só que eu tenha pensado “nossa, esse sim é plausível”. Todos são insanos. O que é maravilhoso.

Melhores partes: Como eu disse acima, uma parte que eu já adorava, mesmo antes de comprar o livro, era o conto escrito pelo personagem São Sem-Pança. Mas vários outros segmentos chamaram a minha atenção e vou listá-los abaixo. Meu livro está cheio de post-its com partes marcadas. Fico tentado a escrever diversas passagens aqui, mas não farei isso. Você precisa ler tudo dentro do contexto.

-Tripas (pag. 20); Êxodo (pag. 197); Ritual (pag. 256); Something’s Got to Give (pag. 398) e Fondue (pag. 416).

Vale a pena? Sim. Vale. Eu sou um pouco suspeito pra falar, visto que eu compraria tudo que este homem tenha escrito, mas é um livro que vale a pena ter. É pesado. É denso. É um livro que poucos terão estômago e paciência pra terminar. Boa sorte, amigx.

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Resenha: “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe

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Título: A Desumanização
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Cosac Naify
Ano: 2014

Antes de tudo quero dizer que minha resenha, por maior que seja, não vai conseguir explicar o que acontece neste livro. Portanto, tentarei dissertar sobre os pontos mais importantes e, ao longo do texto, incluirei frases que chamaram a minha atenção.

“A Desumanização” tem um título forte e que é plenamente justificado no fim da leitura. Depois de todas as curvas e descidas na vida de Halla, vemos que ela levou a sério quando seu pai fala que é possível substituir “vida” por “poesia”. É isso que ela faz durante todo o livro.

Não é um livro fácil. Não é um livro para se devorar em uma sentada. É um livro profundo, feito de imersões na mente e vida da (inocente?) protagonista, Halla, e das pessoas que convivem (ou conviveram) ao seu redor: a mãe, o pai, Sigridur, Einar, Steindór, Thurid e ainda Hilmar e Oskar.

Luto: as dissertações de Halla acerca do sentimento de luto por sua irmã falecida, Sigridur, são belas. A beleza do luto e da depressão descritos pelo autor conseguem ultrapassar a barreira do senso comum de que essas coisas tão ruins tenham alguma beleza. Valter Hugo Mãe consegue tornar bonito e poético até mesmo as coisas mais grotescas, te deixando com uma mistura desagradável de surpresa, tristeza e deslumbre.

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(imagem/Viajar Entre Viagens)

“A ver a imensidão dos fiordes, as montanhas de pedra cortadas por rigor, o movimento nenhum, achei que o mundo mostrava a beleza mas só sabia produzir o horror.” (posição 77-78)

 

Imaginação: por ser narrado por uma criança, é comum que ocorram diversas abstrações sobre as mais diversas coisas. Principalmente quando essas coisas são detalhadas de um ponto de vista abalado pela tristeza e ceticismo. Além disso, no começo do livro, várias dessas abstrações são alimentadas pelo pai de Halla, que é poeta e um leitor nato.

“Punham-se à espreita das águas a perceber se havia movimentos suspeitos. Quase todos queriam ver monstros. Ninguém se convencia de que os mares eram só para animais de clara ciência. Alguns juravam ter visto cabeças levantadas, feitas de dez olhos e bocas de mil dentes. Monstros oceânicos. Viam o oceano como sangue de cristal. Balanceava diante de nós sinuoso, muito belo, mas carregava-se de perigos e sonhava com afogar-nos a todos. O oceano desceu das veias puras de deus. Dizia um velho. Nas veias puras de deus vivem parasitas que são monstros.” (posição 129-133)

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As auroras boreais islandesas também aparecem durante o livro. (imagem/Islandia 24)

“Apertei a moeda. Adormeci à espera que crescesse e me matasse. As moedas eram da família das facas.” (posição 490-491)

Sociedade: durante todo o livro e todos os “altos e baixos” da vida de Halla, a sociedade em que ela está inserida é colocada como a vilã da história. E com razão. Desde o primeiro momento, em que ela perde a irmã e é obrigada a viver com uma mãe perturbada e violenta e é chamada, insensivelmente, de “a irmã menos morta” até as várias situações ruins em que ela se encontra, é possível observar a maneira imprudente que a sociedade lida com as pessoas que estão passando por dificuldades.

A agressão, a rejeição, os xingamentos, parecem ser mais “fáceis” do que simplesmente o acolhimento de Halla.

“A mais morta está abandonada. Puseram-na lá em cima e agora não querem saber. A mais morta, quando apanhar esta do lado de lá, também lhe vai dar muitas no focinho. Deve odiá-la. A mais morta deve odiar a irmã e deve estar à espera que ela tombe de uma vez por todas.” (posição 1179-1181)

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Valter Hugo Mãe (imagem/Rita Rocha)

Leitura: “A Desumanização” é praticamente uma homenagem aos livros e à poesia. É a única escapada possível para a vida turbulenta de Halla (e, por influência dela, da vida de Einar).

“Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” (posição 482-483)

Também ocorrem diversas abstrações sobre linguagem, literatura e como essas coisas se relacionam com a natureza que ela observa.

“Nenhuma pedra se entende por caracteres. As pedras são entidades absolutamente autónomas às expressões. As pedras recusam a linguagem. Para a linguagem as pedras reclamam o direito de não existir. Se as nomeamos não estamos senão a enganarmo-nos voluntariamente. Às pedras nunca enganaremos. Elas sabem que existem por outros motivos e talvez suspeitem que o nosso desejo de falar seja só um modo menos desenvolvido de encarar a evidência de existir.” (posição 321-325)

Ignorância: sua tia, Thurid, é uma mulher ignorante e que costuma reproduzir discursos inflamados sobre coisas que ela não conhece. Em determinada parte, ela queima livros, cria teorias conspiratórias e discursa sobre uma maldição que acomete escritores. Neste tópico, trago duas citações:

“A mulher urso construía as convicções mais delirantes do mundo. Afirmava que as guerras mundiais não haviam existido. Haviam servido para arregimentar os homens, mandá-los para lugares quentes, dar-lhes fome e sede, para depois levar lhes coca-cola num golpe publicitário sem precedentes. A coca-cola inventara claramente a primeira guerra, servindo-se com cocaína pura para anestesia coletiva da população mundial.” (posição 1372-1375)

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Esta erupção vulcânica faz parte da geleira Eyjafjallajökull. Esta, especificamente, não aparece no livro, mas serve pra ilustrar uma das paisagens narradas por Halla. (imagem/G1)

 

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(imagem/Blog do Arthur Veríssimo)

“Os escritores teriam sempre longas contas para acertar com deus, por se atreverem a deixar as ideias mais perigosas ao serviço dos mal preparados, dos ingénuos, dos sonhadores, dos que errariam em qualquer decisão perante as questões mais elementares. Deus haveria de sentenciar cada texto e cada memória, e todos os escritores seriam triturados entre os seus dedos para caírem como pó no esquecimento do inferno. A nós, competia nada, apenas assear, organizar, obedecer. Não ler, pensei, era como fechar os olhos, fechar os ouvidos, perder sentidos.” (posição 1388-1393)

 


RESUMO:

Por ser um livro publicado em português lusitano, o estilo de Valter Hugo Mãe se torna ainda mais rebuscado. É comum ter que reler diversas vezes o mesmo trecho para captar o que o autor pretendia dizer. Entretanto a beleza de “A Desumanização” é tão necessária, que a dificuldade de leitura torna-se um bom desafio para os leitores mais insistentes (como eu). Quando somos jogados nos fiordes Islandeses, somos afogados com a quantidade de temas extremamente relevantes tratados na obra. É até surpreendente que um autor tenha conseguido tratar de tudo isso, sem forçar a barra, em menos de 200 páginas. É o tamanho mais uma vez provando que não é documento.

Já considero “A Desumanização” de Valter Hugo Mãe um clássico da literatura.

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Pause o livro e vai ler um BBB

Apesar de ser escritor, não sou de escrever textão. Na internet, as pessoas sempre estão muito convencidas das coisas que elas acreditam e não estão dispostas a serem convencidas do contrário. Ainda assim, vou tentar dissertar sobre um assunto que nessa época do ano sempre vem à tona: Big Brother Brasil.

Existem coisas mais importantes para se discutir do que um programa de TV, é claro. E é exatamente esse o meu ponto.

Todo o ódio destilado na internet sobre um programa de TV, com argumentos absolutamente superficiais e pura desonestidade intelectual me deixam bastante indignado. Não sei se vocês sabem, mas eu estudo publicidade. Sou um comunicador. Ainda não formado, mas sou. Eu tento identificar a importância de cada coisa que está na mídia atualmente, por mais supérfluas que essas coisas possam parecer, principalmente na televisão (o meu eletrodoméstico preferido).

Desde que comecei a acompanhar discussões sobre Big Brother Brasil, leio e escuto as mesmas coisas: programa “deseducador”, disseminador de alienação, “desligue a TV e vá ler um livro”. Pois bem, vamos lá.

Comecemos por um ponto importante: o Big Brother Brasil é um programa de, nada mais nada menos, entretenimento. Entretenimento, de acordo com o Dicionário Michaelis, é “1 Ato de entreter. 2 Distração, passatempo, divertimento; entretém.” Vocês já sabiam disso, não é? É claro que sim. Apesar de eu concordar que existe certa ausência de conteúdo educacional na televisão aberta brasileira, ainda acho que devemos colocar os pontos nos is.

Você não esperaria que um cavalo latisse, não é?

Não estou defendendo a TV Globo. Nem de longe ela precisa disso. Entretanto, é sensato dizer que ela o vende como um produto de diversão e é isso que entrega. Se você gosta ou não, é problema seu e é exatamente para isso que serve o controle remoto, a televisão paga, as revistas, os livros, o rádio, jogos, internet, Netflix, Amazon Prime, cinema, teatro, música e infinitas outras distrações que podem vir a te agradar.

Você não pode ser tão negativo a ponto de não gostar de nada.

Como um curativo, vou puxá-lo rápido para que você entenda a ideia: o Big Brother Brasil não é feito pra educar. Acredito que nunca tenha sido. É feito pra ser engraçado, dramático, entediante, envolvente ou qualquer outra característica que um reality show deva ter em seu núcleo.

Então eu deveria gastar o meu tempo com algo mais produtivo, certo? Digamos que hipoteticamente você possa ditar o que eu faço ou deixo de fazer. Eu deveria ler, ok? Bem, vou lhe dar outra notícia devastadora.

Sente-se. Você pode desmaiar com o choque.

Você é capaz de fazer várias coisas na vida. Assistir BBB e, antes de dormir, ler um livro, por exemplo. Ou assistir a uma série de streaming. Ou fazer compras online. Ou jogar RPG com os seus amigos. Uma coisa não exclui a outra. Seu dia tem vinte e quatro horas. Você consegue administrar o seu tempo para consumir conteúdo “de qualidade” (muitas aspas) e entretenimento “de baixo nível” (mais aspas ainda). Se não for um completo preguiçoso, óbvio. Eu entendo que, às vezes, temos a mania de colocar a culpa das nossas frustrações nos outros. Eu entendo. Mas pare de fazer isso.

Calma, não comece a pegar sua lista de livros lidos nos últimos dezessete anos, durante os 3 meses em que o programa fica no ar, nos 45 minutos que o programa é exibido pela Globo diariamente. Eu não estou nem levemente interessado. O que você faz para desenvolvimento pessoal deve ser… pessoal.

Se você lesse tanto quanto faz parecer para os outros, talvez não fosse tão preconceituoso. Talvez passasse mais tempo, sei lá, lendo…?

Espero finalizar esse texto em breve. Vou lhe dar uma dica, caro revoltado da internet: não seja tão amargo. É por causa de pessoas negativas como você que estamos empacados. Se damos um passo para frente, você faz questão de dar cinco para trás. Não seja assim.

Deixe que bundas apareçam no horário nobre. Existe um número que aparece no canto inferior esquerdo no começo dos programas de TV. Se chama Classificação Indicativa. Recomendo a leitura do Guia Prático no site do Ministério da Justiça.

Ah, um comentário final: muito obrigado por incentivar a leitura. Precisamos de mais pessoas como você, mas que o façam durante o ano todo e não só de janeiro à março. Não sabe o que fazer? Adquira novas publicações dos seus autores preferidos; faça doações para pessoas que não podem comprar livros; ao invés de xingar um programa de televisão, elogie e divulgue o trabalho de um autor nacional.

Aprenda a relevar coisas que não são do seu interesse e a enaltecer coisas que você acha positivas pro nosso mundo.

Inverta os polos.

Não seja tão negativo.

Deixa de birra.

Resenha: “Histórias de Amor” de Rubem Fonseca

 

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Título: Histórias de Amor
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2012 (a primeira edição é de 1997)

Quem conversar 10 minutos comigo vai perceber a rapidez com que eu insiro Rubem Fonseca nas minhas conversas. Já até falei sobre ele aqui no blog. Talvez por eu gostar tanto dos livros dele e por ter lido tantos em um ano (este é o nono até agora), estou ficando um pouco mais “exigente”. Acho que essa é a palavra errada, pois eu leria qualquer coisa do Fonseca e é praticamente impossível que eu ache algo ruim.

Agora sobre Histórias de Amor.

Esse é um daqueles títulos irônicos que, se eu já não conhecesse o estilo do Fonseca, até acreditaria. Farei agora breves comentários sobre os melhores contos. 
“Betsy”: logo no primeiro conto já entendemos que o amor anunciado no título não precisa ser necessariamente de humano pra humano. Pra mim, é algo novo vindo do autor. Esse é o menor conto de todos e o meu preferido deste livro. Me afetou pessoalmente.

“Cidade de Deus” é incrível. É um daqueles contos que se alguém me mostrasse sem dizer que era do Fonseca, eu saberia na mesma hora. O que mais me divertiu foi a seguinte passagem:

Antes de dormir ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”
“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços, e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto”, disse Zinho.

“Família”, “O anjo da guarda”, “Viagem de núpcias” e “O amor de Jesus no coração” são ótimos, com todas as escatologias e finais inesperados que o autor utiliza de maneira tão característica. 

O único conto que considerei menos interessante foi “Carpe Diem”. É o mais longo do livro, mas também o mais repetitivo. É repleto de referências de literatura e cinema, mas nem isso me fez gostar dele.

Li em menos de um dia no Kindle, mas a leitura rápida já é algo que podemos esperar do autor. De qualquer forma, “Histórias de Amor” é um bom livro. Talvez não para quem queira começar a ler a obra do Rubem Fonseca, mas para os já iniciados na literatura do mesmo.

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Resenha: “Angosta” de Héctor Abad

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Título: Angosta
Autor: Héctor Abad
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2015

“A capital deste curioso lugar do planeta se chama Angosta. Com exceção do clima, que é perfeito, tudo em Angosta está errado. Poderia ser o paraíso, mas se transformou num inferno.” (posição 5088, última página do livro)

“Angosta” poderia ser uma série de TV. Acredito que uma adaptação para filme seria pouco. Acontece muita coisa o tempo todo nesse livro.

É um romance distópico. É um livro político. É uma crítica social. É um livro sobre pessoas. Angosta é muitas coisas, e, ao contrário desses monstros de Frankenstein que a gente vê por aí, faz tudo isso sem parecer um amontoado de coisas disformes.

“Os livros, nessa cidade estreita e sitiada, eram o único refúgio deles, o oásis arcádico no meio do deserto, a música silenciosa que os tirava do mundo da fúria, do terror e da competição” (posição 4048)

A escrita de Héctor Abad foi uma das coisas que mais me surpreendeu neste livro. Apesar de parecer um pouco presunçosa à primeira vista, consegue se manter no mesmo ritmo da primeira página até a última. A prosa de Abad é uma das melhores (senão a melhor) que já li. As reflexões, principalmente as do personagem Andrés Zuleta, são excelentes.

“Quero fazer com ela, com ela e com ela, com Virginia, com esse fogo vivo, com seu olhar duplo, contraditório e único, só com ela, que eu amo, embora odeie profundamente o verbo amar, tão surrado que só por escrevê-lo você já parece um imbecil.” (posição 3797)

O autor também tem uma qualidade, a meu ver, positiva que vi em poucos autores até hoje: a velocidade que o texto muda de algo muito rebuscado ou até poético para algo muito coloquial. Aqui devo apontar o excelente trabalho da tradutora Rubia Prates Goldoni.

“Colaboraê, tio, colaboraê” (posição 2649)

Um dos recursos interessantíssimos desse livro é que os (muitos) personagens são inseridos na história, mas a descrição deles vem em notas de rodapé. Se você está lendo em um Kindle ou similar, terá um ritmo de leitura leve e deveras interessante. Em um dos capítulos, o autor quebra a quarta parede e pede para que o leitor pule esta parte pois pode ser enfadonha e seus editores chegaram a pedir que ele retirasse do livro. Nesse mesmo capítulo (que não tem nada de enfadonho) vemos críticas muito divertidas sobre autores como Paulo Coelho:

“Em La Cuña já temos a obra completa de Coelho repetida três vezes, e ela quase enche uma parede. É como se todo mundo quisesse se desfazer dos seus livros depois de comprá-los. São como cascos vazios de Coca-Cola: em toda casa sempre tem algum.” (posição 2762)

Para finalizar, de maneira curta e grossa, “Angosta” é um Livro com L maiúsculo. Daqueles que a gente lê devagar pra entrar na vibe. Virou, sem dúvidas, um dos melhores que já li.

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