Resenha: “Neuromancer” de William Gibson

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Título: Neuromancer
Autor: William Gibson
Editora: Aleph
Ano: 2016 (5ª edição)

Poucas vezes fiquei tão feliz com um presente quanto no dia que ganhei o box da Trilogia do Sprawl. A leitura de Neuromancer (pelo menos a primeira metade) foi bastante longa e exaustiva. Levei cerca de quatro meses para terminar — lendo outros livros paralelamente para resenhar no blog, como vocês sabem.

Alguma coisa escura estava se formando no núcleo do programa chinês. A densidade de informações sobrepujava o tecido da matrix, disparando imagens hipnagógicas. Tênues ângulos caleidoscópicos centravam-se num ponto focal preto e prata. Case viu símbolos infantis de mal e de azar caírem rolando ao longo de planos translúcidos: suásticas, caveiras e ossos cruzados, dados com olhos serpente piscando. Se ele olhasse diretamente para aquele ponto nulo, nenhum contorno se formaria. Ele precisou de uma dezena de olhadas periféricas rápidas antes de descobrir o que era: uma espécie de tubarão, reluzindo como obsidiana, os espelhos negros de seus flancos refletindo luzes distantes, fracas, que não tinham nenhuma relação com a matrix ao redor.

Meus destaques:

  • Pare de se preocupar em entender cada palavra. Quando você descobre o jeito certo de ler “Neuromancer”, a leitura voa. É igual a “Laranja Mecânica” nesse sentido. A intenção é te levar para um futuro em que você, obviamente, não conhece muita coisa. Então, é importante ter isso em mente: leia, mas não se apegue a cada detalhezinho (você provavelmente vai abandonar a leitura se fizer isso).
  • Leia essa resenha aqui antes de começar a leitura e toda vez que pensar em desistir. Tem umas ilustrações e explicações interessantes que podem te inspirar.
  • A cena da luta de gladiadores holográficos é bem imersiva. Você se sente lá no meio de um monte de gente.
  • A editora Aleph arrasou na edição (o que já é hábito da editora, diga-se de passagem). Destaque merecido.
  • A trama tem muitos personagens, lugares e descrições. Por vezes, isso se torna cansativo, mas uma vez que você se acostuma, começa a entender a importância das descrições.
  • É um livro psicodélico. Com uma estética cyberpunk e uma narrativa diferente, é comum interromper a leitura com uma interrogação estampada na cara.
  • A tradução de Neuromancer é exemplar. Não li o livro em inglês, apenas algumas partes, mas imagino que a tradução tenha dado bastante trabalho. E seguiu o conceito proposto pelo autor.
  • O final é… interessante. Por Neuromancer ser uma história fechada (apesar de ter continuações), o final fica em aberto. Mas é justo. Algo que beira uma alucinação, mas tem um sentido.

Vale a pena comprar? Sim! É um clássico de social (science) fiction com críticas inteligentes sobre a nossa relação com a tecnologia e como ela é inevitável. Além de discutir diversos aspectos da natureza humana como a vida em sociedade e filosofia. É uma leitura bem importante, no fim das contas.


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Resenha: “Sejamos Todos Feministas” de Chimamanda Ngozi Adichie

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Título: Sejamos Todos Feministas
Autor: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014

Eu já estava devendo uma leitura da Chimamanda para mim mesmo faz tempo. Vi diversos vídeos de palestras e entrevistas da autora na internet e meu interesse só aumentava. O jeito inteligente (porém deixando de lado pedantismos) que ela fala me conquistou.

Decidi começar com uma obra curta e agora já quero ler todos os livros.

Além da raiva, também tenho esperança, porque acredito profundamente na capacidade de os seres humanos evoluírem.

Meus destaques:

  • “Sejamos Todos Feministas”, por ser uma “transcrição” de uma palestra dada pela autora, segue um modelo parecido com o de “Buracos Negros” de Stephen Hawking: linguagem acessível e muito curto. Clique aqui para ver a palestra do TED.
  • Em menos de 30 páginas, Chimamanda explora o tópico feminismo através de resumos de suas próprias experiências e sugere soluções interessantes para frear o machismo.
  • A obra tem como cerne a discussão sobre os estereótipos a que somos (ambos homens e mulheres) expostos desde que nascemos.  Sugiro como conteúdo complementar que você assista o documentário “The Mask You Live In” da diretora Jennifer Siebel Newsom.
  • O tom da obra é de esperança. É bom ler algo que espere e proponha mudanças positivas na sociedade e em nós mesmos. A desconstrução é longa mas é necessária.

Vale a pena comprar? Sim! Da última vez que olhei, o e-book está disponível gratuitamente na Amazon. É uma leitura rápida que vai te apresentar à obra de Chimamanda Ngozi Adichie. Pretendo, com toda certeza, ler outros livros dela – principalmente os de contos, que parecem ser incríveis.


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Resenha: “Ácido, Amargo e Triste” de Maud Epascolato

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Título: Ácido, Amargo e Triste
Autor: Maud Epascolato
Editora: INDIE 6
Ano: 2016

Esse é o segundo conto de Maud Epascolato que senti a necessidade de resenhar aqui no blog. O primeiro foi “Querida Mari”. De qualquer forma, li os dois contos no mesmo dia. Além da capa muito legal (será uma referência a “O Oceano no Fim do Caminho”?), por diversos motivos, preferi esse do que o outro, diga-se de passagem.

“Meu travesseiro parecia ter sido confeccionado com pedras, as mesmas que poderiam ter colidido com a cabeça de Laís. Mas não. Eram joelhos. Milhares deles batendo em minha cabeça e me fazendo despertar no meio da madrugada como se fossem martelos. Em vez de desmaiar com as pancadas, eu acordava e sentia as dores de continuar viva carregando aquele fardo dentro do peito.”

Meus destaques:

  • O conto é baseado na música “Acid, Bitter & Sad” da banda This Mortal Coil. É interessante saber disso antes de começar a leitura.
  • É um ótimo conto, muito criativo e bem escrito.
  • Tem uma história completa, bem amarrada e personagens com profundidade.
  • A escritora aborda a natureza das relações familiares problemáticas através de um enredo instigante.
  • Formato que alterna entre sonho, realidade, memórias e frustrações.
  • É mais uma boa “leitura de meio” da autora.

Vale a pena comprar? Sim! Vale muito a leitura que é rápida e muito instigante. É mais uma “leitura de meio” que considero satisfatória.


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Resenha: “A Órbita” de Carlos E. A. Ramírez

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Título: A Órbita
Autor: Carlos E. A. Ramírez
Editora: Cattle Corner histórias
Ano: 2016

Mais uma obra que achei enterrada no meu Kindle. Baixei vários contos como esse (e os da Maud Epascolato) que estavam lá esperando para serem lidos. Não conhecia o autor, mas decidi dar uma chance.

“Mesmo que aqui ainda seja árido, frio, vermelho e hostil, nós sempre fomos e sempre seremos o planeta Terra.”

Meus destaques:

  • Tem uma escrita ágil. Realmente ágil.
  • O conto busca trazer uma reflexão sobre os ciclos em que a história humana está condenada a passar. É bom ter uma oportunidade de refletir sobre esses aspectos nesse momento do nosso país.
  • Descobertas e redescobertas morais, religiosas, científicas e políticas acontecem em diversos momentos da história.
  • A trama é curta, mas com um grande pulo de tempo no meio. Para mim, tornou a história artificial demais (eu sei que é “ficção científica”, mas não justifica).
  • Merecia ter uma história melhor explorada (o que provavelmente significaria algumas páginas a mais).

Vale a pena comprar? Depende. Se você quer ler algo simples, rápido mas sem muitas complicações (de enredo, de personalidade dos personagens etc.) pode ler. Se preferir algo diferente, existem outras leituras que podem te agradar mais (tenho várias dicas aqui no blog).


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Resenha: “Depois a Louca Sou Eu” de Tati Bernardi

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Título: Depois a Louca Sou Eu
Autor: Tati Bernardi
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2016

Descobri esse livro por acaso. Já tinha ouvido falar da Tati Bernardi de algumas colunas na Folha de S. Paulo e achei que valeria a pena começar a leitura.

Depois que li “Alucinadamente Feliz”, estive à procura de um livro sobre transtornos mentais que tratasse o assunto de uma maneira inusitada (misturando humor e drama nos momentos certos). Achei em “Depois a Louca Sou Eu” uma boa obra que preencheu esses requisitos de maneira exemplar.

“Meu amigo, se você é bizarro, saiba três coisas. (E lá vem momentinho autoajuda, péssimo, mas…) Uma: você não está sozinho. Duas: você é um cara legal, pode acreditar. Três: as pessoas rasas são mais felizes, mas elas nem sentem isso de verdade porque são rasas, então não vale.” 

Meus destaques:

  • Encontrei incríveis semelhanças com “Alucinadamente Feliz“. Seria ainda melhor se tivesse ilustrações ou fotos que enriquecessem a história como no caso da obra de Jenny Lawson;
  • Tem muitas referências à cultura pop brasileira: desde a “Sexta Sexy” da Band, passando por séries da Globo e até mesmo Sílvio Santos;
  • É um bom espelho. Digo isso da maneira mais direta possível. Como millennial, posso me identificar com uma narradora problemática e deveras hipocondríaca. E devo dizer que é um espelho em que vemos até mesmo os menores defeitos de nossas próprios medos e inseguranças;
  • Tive crisos de riso no ônibus. Isso já é um bom medidor de humor. É um livro triste mas é engraçado (os melhores livros de comédia são assim, certo?);
  • É um livro que gera empatia. Era comum eu me pegar dizendo “eu te entendo…” pra Tati.
  • Os melhores capítulos são: “Vinte charutinhos”, “Eu não desmaio, dr. Guido” e “Pânico na firma”. Há outros em que a autora disserta sobre remédios, rituais do cotidiano, ataques de pânico e muitas fobias: a avião, a patas de barata, a vomitar, a cheiros, a festas, a lugares fechados, a Ano-Novo, etc;
  • Me identifiquei com esse livro pois, assim como ela, eu também achei na literatura um cano de escape para os meus probleminhas aparentemente incontroláveis. Ler e escrever me acalmam e me deixam em um estado de domínio sobre minha ansiedade.

Vale a pena comprar? Definitivamente sim. Se você tiver alguns desses problemas, pode ser que o livro seja um trigger bem pesado pois as descrições são intensas. Mas é muito bem escrito e tem uma leitura muito ágil. Com certeza entrou no ranking das melhores leituras do ano.


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Resenha: “Querida Mari” de Maud Epascolato

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Título: Querida Mari
Autor: Maud Epascolato
Editora: INDIE 6
Ano: 2013

Geralmente tento não colocar resenhas de contos aqui no blog e sim no Instagram. Dessa vez, porém, eu acabei descobrindo dois contos de Maud Epascolato no meu Kindle e resolvi lê-los de uma vez. Nessa semana e em outras no próximo mês, teremos resenhas de contos tanto dela quanto de outro autor.

Meus destaques:

  • Final aberto a interpretações. Essa é uma das características que me fazem adorar contos. A possibilidade de deixar um final em aberto na maioria dos casos. Esse não escapa dessa tendência.
  • Boa escrita, não é cansativo. O estilo de Maud é bastante marcante. É simples de ler e te dá vontade de continuar lendo, independente da história.
  • História um pouco previsível. Bem previsível. Talvez seja essa a maior falha.
  • Uma boa “leitura de meio” para ler entre livros. Já falei sobre isso aqui no blog e já citei diversos contos que preenche esse requisito.
  • O personagem Edgar é de longe o mais interessante. Queria ler mais sobre ele.
  • O conto, além de ser curto, é dividido em pequenos capítulos, o que é particularmente positivo.

Vale a pena comprar? Talvez. É uma “leitura de meio” melhor do que a média, apesar de ser previsível.


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Resenha: “Acerto de Contas – Treze Histórias de Crime e Nova Literatura Latino-Americana” de vários autores

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Título: Acerto de Contas – Treze Histórias de Crime e Nova Literatura Latino-Americana
Autor: Daniel Galera (Org.)
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2017

Achei este livro por acaso enquanto navegava na internet. Além da capa linda que chamou a minha atenção na hora, gostei muito da temática da antologia. Decidi, então, dar uma chance.

Não conhecia nenhum dos autores publicados nessa antologia, mas tenho certeza que voltarei a ler obras de alguns deles no futuro.

  • No começo, a leitura fluiu muito rápido (cheguei à metade em poucos dias, então fiquei empacado no conto “1986”. Depois que finalmente terminei esse, a leitura fluiu bem mais rapidamente).
  • Meus favoritos são
    • “A cara” de Santiago Roncagliolo: conto divertido, tem bastante ironia e um bom final.
    • “O menino sujo” de Mariana Enriquez: é incrível a habilidade da autora de descrever violência e de nos fazer ficar tão obcecados pela história quanto ela pelo menino sujo.
    • “Cadelas” de Jorge Enrique Lage: esse é o tipo de conto que eu gosto de ler. Formato de escrita diferenciado e com final mind fuck. Personagens interessantes.
    • “Tentar lembrar” de Alejandro Zambra: conto metalinguístico com uma historia muito triste e forte sobre uma musa inspiradora do autor, Yasna.
    • “O sol dos cegos” de Joca Reiners Terron: conto sobre uma corrupção absurda que até parece ficção, mas acontece cotidianamente.
    • “Emunctórios” Rodrigo Blanco Calderón: é um conto estranho, escatológico, porém de leitura fluida.
    • “Cavalos na fumaça” de Carol Bensimon: um dos melhores do livro. Criativo e atual.
  • O livro, em grande parte, é bem escrito. As histórias são contadas em diversos países, então podemos conhecer um pouco da cultura de cada um deles. Claro que muitas vezes esses pontos de vista são bem parciais, mas faz parte.
  • Não é um livro leve, posso dizer com segurança.
  • Antologias podem se tornar cansativas muito rápido. Logo após a metade do livro, senti como se o ritmo tivesse mudado (para mais lento), deixando a leitura deveras cansativa (quando você tem aquele sentimento de “só quero terminar logo”.

Vale a pena comprar? Sim. Tenho uma base de avaliação muito clara: se metade dos contos de uma antologia foram bons, então a compra vale a pena. Em “Acerto de Contas”, temos 13 contos dos quais gostei de 7. É uma leitura divertida, no fim das contas.


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