Resenha: “Lúcia McCartney” de Rubem Fonseca

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Título: Lúcia McCartney
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Nova Fronteira (Saraiva de Bolso)
Ano: 2015 (o original foi publicado em 1969)

Mais resenhas de Rubem Fonseca, pra variar. Esse eu comprei em uma promoção na Saraiva — que cheguei a citar nesse post — e é realmente muito bom. Abaixo algumas considerações.

Este é o segundo pocketbook da coleção Saraiva de Bolso que li e, juro pra vocês, não esperava que fosse gostar tanto dessas edições. Livros leves, diagramação legal, tamanho da fonte bom e papel amarelo. Tudo que se tem normalmente num livro de tamanho normal só que… pocket. O único pecado é não ter orelhas, mas dá pra sobreviver.

Fico feliz de ter gostado desses pocketbooks, afinal comprei mais quatro deles e seria horrível ter uma leitura desconfortável.

Quanto ao ritmo de leitura, posso dizer que foi mais do que a média de outros livros do Fonseca. Talvez isso tenha se dado pelo número cada vez maior de tarefas no meu dia-a-dia e leituras paralelas, mas achei interessante registrar.

É um livro denso, como todos do Rubem Fonseca. Alguns contos fluem mais rápido, outros podem levar dias e dias de leitura (como sempre, a minha dica é: não se prenda tanto, pule os contos complicados; se achar necessário, volte a leitura depois).

Meus destaques positivos são os contos:

  • O quarto selo (fragmento): conto simplesmente INCRÍVEL. Sério, esse conto é excelente. Minha anotação no post-it que colei perto do título escrevi “talvez um dos melhores que já li”.
  • *** (Asteriscos): um dos contos que prova a criatividade do Fonseca. Esse livro inteiro, inclusive, parece ser um dos mais experimentais que li dele.
  • Meu interlocutor: uma palavra: violência.
  • Corrente: a Historinha que eu sempre quis escrever.
  • Os inocentes: me lembrou os primeiros contos que li do Fonseca (os que me fizeram me apaixonar pela obra).
  • Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência: o último conto fechou o livro de uma maneira simplesmente perfeita. Deixou aquela sensação de que a leitura valeu a pena.

Vale a pena comprar? Sim! Comprei por apenas R$ 3,12 numa promoção da Saraiva.

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Resenha: “A Coleira do Cão” de Rubem Fonseca

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4-estrelas

Título: A Coleira do Cão
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Nova Fronteira (Saraiva de Bolso)
Ano: 2015 (o original foi publicado em 1965)

Com o receio de soar repetitivo: eu adoro o Rubem Fonseca. Apesar de todo esse carinho, acreditem ou não, nunca tive nenhum livro dele. Então, quando vi algumas obras em uma promoção de pocketbooks (coleção Saraiva de Bolso), é óbvio que comprei. Além desse, estão na lista “Lucia McCartney”, “A Grande Arte” e “Agosto” do mesmo autor. Em breve escreverei resenhas sobre eles também.

Esse foi o segundo livro escrito pelo Rubão, lá em 1965. Eu meio que me devia essa leitura, então foi gostoso de ler. “A Coleira do Cão” tem oito contos e, na edição da Saraiva de Bolso, apenas 192 páginas.

Os meus destaques são:

“A Opção”: enquanto lia este conto só conseguia imaginar a reação das pessoas nos anos 1960 aos assuntos debatidos de forma tão aberta aqui. Tratar de transexualidade de uma maneira criativa, envolvente e muito bem escrita deve ter sido uma surpresa na época. Foi bom descobrir que o Rubem já escrevia finais em aberto antigamente.

“O Grande e o Pequeno”: foi uma belíssima surpresa. Comecei a ler e, por algum motivo que desconheço, criei alguma resistência. Depois das primeiras páginas eu fui arrebatado. Muito bem escrito, com um ar nostálgico que me trouxe sentimentos bons. Para vocês terem uma ideia, no post-it que colei no capítulo escrevi “É como assistir a um ótimo filme”.

“A Coleira do Cão”: apesar de não ser fã do gênero, eu adoro ler os contos policiais do Rubem. Eles são tão bem escritos, as tramas e os personagens vão desabrochando de um jeito tão natural que, quando dou por mim, já estou devorando as últimas páginas da história. Foi um final perfeito para o livro.

Vale a pena comprar? Claro que sim! Principalmente na Saraiva, por custar pouquíssimo (comprei por menos de R$3,50, sério). Abaixo tem o link para o ebook na loja da Amazon, caso você queira dar uma pequena comissão aqui pro blog hehe 🙂

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Resenha: “Assombro” de Chuck Palahniuk

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Título: Assombro
Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Leya
Ano: 2016 (o original foi publicado em 2005)

Comprei este livro ainda na pré-venda na Saraiva. Apesar de não ter tido a melhor experiência de compra da minha vida (a data de lançamento foi adiada quase cinco vezes e o livro demorou muito tempo pra chegar, mesmo com um valor de frete deveras caro comparado com o da Amazon), fiquei muito ansioso para começar a ler “Assombro” na época. Parte da minha ansiedade vinha do fato de eu já ler e reler na internet o conto “Vísceras” (no livro é chamado de “Tripas”).

Prometi a mim mesmo que o leria em janeiro, como livro principal (depois postarei sobre minha rotina de leitura e explicarei isso), mas acabei levando até hoje, oito de fevereiro, para terminar. Abaixo estão as minhas observações sobre essa obra.

Quem me conhece pessoalmente sabe o meu amor pelo Chuck Palahniuk. Sabe aquele autor que você lê absolutamente tudo que ele escreve? Até lista de supermercado, sabe? Pois é. Inclusive, estou devendo um textinho sobre ele (bem aos moldes do que escrevi para o Rubem Fonseca). Algo sobre o estilo de escrita dele me lembra o do Rubem, inclusive: só de bater o olho e ler um parágrafo eu já sei quem está escrevendo.

Formato do livro: Gosto de livros com formatos diferentes, até por ter passado muito tempo da minha vida lendo aquele mesmo formato arroz com feijão dos romances normais. Aqui, o Chuck alterna entre uma trama central, um “poema” e um conto narrado por um dos personagens. Tudo interligado. E a maneira que ele conseguiu fazer isso, sem furos aparentes e rebuscando as referências o tempo todo, só me deixou mais encantado com “Assombro”.

Se você ler com um pouco de atenção, não é difícil ver no livro uma sátira aos realities shows. Entretanto, de acordo com a Wikipédia, o Chuck disse que o livro é sobre a atual “batalha de credibilidade” já que, com a tecnologia, é muito fácil que qualquer um consiga publicar os seus trabalhos.

Tamanho: Mais de 500 páginas que assustam. Confesso. Em alguns pontos do livro, os mais (propositalmente) lentos, você tem a impressão de que não vai conseguir acabar. Daí vem o autor e te dá um tapa na cara e um soco no estômago pra te convencer a continuar.

Ritmo de leitura: O Palahniuk conesegue fazer algo que, na minha opinião, apenas os melhores autores conseguem: te fazem esquecer de tudo ao seu redor. Esse mergulho na trama é uma coisa muito positiva, principalmente pelas temáticas pesadas do livro. Ele mistura informações técnicas (ponto recorrente em todas as obras do autor), sentimentos e ações de uma forma magistral. Se ele ousasse deixar o leitor apenas na superficialidade, o texto provavelmente pareceria algo extremamente presunçoso. Mas não é.

Personagens: O livro tem cerca de 20 personagens na trama principal (não é relevante contar os personagens nos contos). 18 são pessoas supostamente escritoras que se oferecem para participar de um retiro de criatividade. As outras duas são a Sra. Clark e o Sr. Whittier, que são os únicos que escrevem mais de um conto. Aliás, não é possível sentir uma gota de empatia com nenhum desses loucos. Não há um só que eu tenha pensado “nossa, esse sim é plausível”. Todos são insanos. O que é maravilhoso.

Melhores partes: Como eu disse acima, uma parte que eu já adorava, mesmo antes de comprar o livro, era o conto escrito pelo personagem São Sem-Pança. Mas vários outros segmentos chamaram a minha atenção e vou listá-los abaixo. Meu livro está cheio de post-its com partes marcadas. Fico tentado a escrever diversas passagens aqui, mas não farei isso. Você precisa ler tudo dentro do contexto.

-Tripas (pag. 20); Êxodo (pag. 197); Ritual (pag. 256); Something’s Got to Give (pag. 398) e Fondue (pag. 416).

Vale a pena? Sim. Vale. Eu sou um pouco suspeito pra falar, visto que eu compraria tudo que este homem tenha escrito, mas é um livro que vale a pena ter. É pesado. É denso. É um livro que poucos terão estômago e paciência pra terminar. Boa sorte, amigx.

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Resenha: “Histórias de Amor” de Rubem Fonseca

 

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Título: Histórias de Amor
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2012 (a primeira edição é de 1997)

Quem conversar 10 minutos comigo vai perceber a rapidez com que eu insiro Rubem Fonseca nas minhas conversas. Já até falei sobre ele aqui no blog. Talvez por eu gostar tanto dos livros dele e por ter lido tantos em um ano (este é o nono até agora), estou ficando um pouco mais “exigente”. Acho que essa é a palavra errada, pois eu leria qualquer coisa do Fonseca e é praticamente impossível que eu ache algo ruim.

Agora sobre Histórias de Amor.

Esse é um daqueles títulos irônicos que, se eu já não conhecesse o estilo do Fonseca, até acreditaria. Farei agora breves comentários sobre os melhores contos. 
“Betsy”: logo no primeiro conto já entendemos que o amor anunciado no título não precisa ser necessariamente de humano pra humano. Pra mim, é algo novo vindo do autor. Esse é o menor conto de todos e o meu preferido deste livro. Me afetou pessoalmente.

“Cidade de Deus” é incrível. É um daqueles contos que se alguém me mostrasse sem dizer que era do Fonseca, eu saberia na mesma hora. O que mais me divertiu foi a seguinte passagem:

Antes de dormir ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”
“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços, e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto”, disse Zinho.

“Família”, “O anjo da guarda”, “Viagem de núpcias” e “O amor de Jesus no coração” são ótimos, com todas as escatologias e finais inesperados que o autor utiliza de maneira tão característica. 

O único conto que considerei menos interessante foi “Carpe Diem”. É o mais longo do livro, mas também o mais repetitivo. É repleto de referências de literatura e cinema, mas nem isso me fez gostar dele.

Li em menos de um dia no Kindle, mas a leitura rápida já é algo que podemos esperar do autor. De qualquer forma, “Histórias de Amor” é um bom livro. Talvez não para quem queira começar a ler a obra do Rubem Fonseca, mas para os já iniciados na literatura do mesmo.

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O porquê da minha adoração aos livros do Rubem Fonseca

Quando eu era criança, minha mãe tinha o hábito de frequentar a casa de uma vizinha. Certa vez, a acompanhei. Nesse dia, a família estava reunida assistindo um filme de terror. O filme tinha tantas cenas horríveis, que eu passei um mês sem dormir e vários anos tendo repúdio a esse tipo de filme. Mais tarde, quando me recuperei do trauma, assisti ao mesmo filme por acaso e vi que não tinha nada demais, eu apenas tinha ficado impressionado.

Durante esse tempo em que eu evitei filmes de terror, eu tinha que conviver com o paradoxo de ser uma criança que gostava de violência, mas não conseguia nem ver tal coisa. Até hoje permaneço com trauma de agulhas e sangue de verdade, mas isso fica pra outro post. Descobri, então, minha tendência a gostar de literatura brutalista (gênero esse que só descobri a poucos meses atrás e sei muito pouco, confesso).

Conheci a obra de Rubem Fonseca em um dia aleatório, em uma situação aleatória. Tinha acabado de decidir que não poderia deixar de ler por falta de dinheiro para comprar livros, então me rendi aos e-books (descobri um site utilíssimo nesses momentos chamado LeLivros). Na sessão de contos, vejo o livro “Secreções, Excreções e Desatinos”. Quem não se encantaria com um título desses?

Esse livro, por sinal, virou um dos meus favoritos. Sua crueza ao tratar de tudo me encantou como poucas coisas antes. No futuro escreverei sobre como a minha vida teve diversos pontos que me fizeram mudar completamente o jeito que eu via a arte e o mundo. Esse foi um deles.

Claro que não foi o primeiro, mas foi o que me empurrou de vez nessa maravilhosa ladeira de violência, frieza, aura noir sem perder a essência brasileira e personagens de caráter completamente distorcido.

Caso queira uma dica de como começar a leitura da obra do autor, recomendo-lhe a mesma ordem em que eu li: “Secreções, Excreções e Desatinos” (2001), “Amálgama” (2013), “Pequenas Criaturas” (2002) e “Feliz Ano Novo” (1975). Recomendo também que alterne a leitura com outros livros, de outras temáticas e autores. Você perceberá claramente a falta que os contos farão na sua vida literária.

Mas só quatro livros até agora? Sim. Foi amor à primeira lida.

São livros incrivelmente ágeis e todos tem os seus pontos altos e baixos, o que me deixa mais encantado. Livros brutais sobre realismo têm que ser humanos, certo? Um aviso: o tom dos contos pode soar, inicialmente, machista ou lgbtfóbico, mas dá pra perceber que isso emana dos personagens (que não te fazem ter simpatia de maneira alguma, muito pelo contrário) e não do autor que tem hoje 91 anos.

O que está mais fresco na minha memória, “Feliz Ano Novo”, tem como destaque, além do conto homônimo (destaco o fato de nunca ter lido uma crítica social tão incrível), os contos “Passeio Noturno (I e II)”, “O outro”, “Nau Catrineta” (esse me deixou até sem dormir), “Entrevista” e “Intestino Grosso” (uma crítica ainda muito válida sobre o puritanismo da sociedade).

Se quiser saber mais sobre literatura brutalista, clique aqui.

Pessoalmente incentivo que você compre os livros. Garanto que não irá se arrepender e é sempre importante valorizar o trabalho do autor. Clique aqui para ver quais livros do autor estão à venda na Amazon (lembro que se você comprar por esse link você ajuda o desenvolvimento do GATILHO).

Se tiver dicas de livros sobre a mesma temática, me manda. Se gostar (ou não) dos livros do Rubem Fonseca, fala comigo também. Bora conversar.

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Escrito originalmente em 19 de maio de 2016, no Deus me livre de ser cult. Daquela época pra cá li vários outros livros do autor, mas isso fica pra outro post 😀